Na política brasileira, há momentos curiosos em que certos personagens parecem atravessar um espelho mágico. De um dia para o outro, mudam de partido, de discurso e — pasmem — até de “convicções”. É o período da chamada janela partidária: um mecanismo legal que deveria servir à reorganização legítima das forças políticas, mas que, na prática, frequentemente se transforma em um verdadeiro desfile de conveniências.
É nesse cenário que a raposa tenta vestir a pele de cordeiro.O eleitor, muitas vezes à distância, assiste a um roteiro já conhecido: aquele político que ontem defendia com fervor uma bandeira, hoje a abandona sem cerimônia, como quem troca de camisa.
O argumento? Sempre nobre. Sempre estratégico. Sempre “em nome do povo”. Mas o povo, esse mesmo, raramente é consultado — apenas invocado como justificativa.Mudar de partido, por si só, não é o problema. Em uma democracia, é natural que ideias evoluam e alianças se reorganizem.
O problema surge quando essas mudanças não são guiadas por princípios, mas por cálculos eleitorais, tempo de televisão, acesso ao fundo partidário ou simples sobrevivência política. Nesse contexto, a coerência passa a ser um detalhe incômodo — e facilmente descartável.A raposa, astuta por natureza, conhece bem os caminhos. Sabe onde estão os recursos, percebe para onde sopra o vento e identifica onde a reeleição parece mais provável.
Move-se com habilidade, apostando que o eleitor não perceberá o jogo. Subestima, assim, a inteligência de quem observa. Mas o eleitor aprende.
Pode até não reagir de imediato, pode até parecer distraído, mas guarda na memória cada movimento suspeito, cada discurso reciclado, cada promessa moldada conforme o palco. E, quando menos se espera, responde — nas urnas, no debate público, na crescente desconfiança.A verdade é que não basta vestir a pele de cordeiro para se tornar um.
A essência, cedo ou tarde, se revela. O histórico pesa, as atitudes denunciam, e a coerência — ou a ausência dela — deixa marcas difíceis de apagar.Por isso, em tempos de janela partidária, cabe ao eleitor um papel ainda mais decisivo: observar, comparar e questionar.
Não se deixar seduzir por discursos oportunistas nem por mudanças repentinas de postura. Afinal, a democracia não se sustenta apenas no direito de escolher, mas na responsabilidade de escolher bem.Porque, no fim das contas, uma vez raposa, jamais será cordeiro — por mais convincente que seja o disfarce.
Por Maurício Alves






