Cartilha do Enem 2026 alertou para citações decoradas na redação; veja como usar referências sem enfraquecer o texto

Professor Will Rodrigues, especialista em Produção de Texto e docente do Colégio Marista São Luís, no Recife, durante aula com estudantes do 3º ano do Ensino Médio. Créditos: divulgação

A um mês do primeiro dia de provas do Enem 2026, muitos estudantes intensificam a preparação para a redação. Nesse período, memorizar citações pode parecer uma forma de garantir bons argumentos, mas referências usadas sem relação direta com o tema podem enfraquecer a construção do texto. Mais do que reunir frases de pensadores ou mencionar obras conhecidas, o candidato precisa demonstrar como esses conhecimentos ajudam a explicar o problema discutido.

O professor Will Rodrigues, especialista em Produção de Texto e docente do Colégio Marista São Luís, no Recife, chama a atenção para o denominado “repertório de bolso”, expressão usada para descrever referências previamente memorizadas e aplicadas de maneira genérica. Segundo ele, o problema está em recorrer a uma fórmula pronta sem estabelecer uma conexão consistente com a discussão. A escolha de uma referência deve contribuir para o raciocínio desenvolvido pelo estudante, e não apenas demonstrar que ele conhece determinado autor, obra ou documento.

Como transformar citações em argumentos

Segundo o professor, entre 2023 e 2025 houve ajustes nas orientações destinadas aos corretores para lidar com referências genéricas ou pouco relacionadas ao tema, embora a matriz de competências da redação tenha permanecido a mesma. Nesse contexto, mencionar uma obra, um pensador ou um documento não garante, por si só, uma boa argumentação. O candidato precisa explicar de que maneira o conhecimento escolhido ajuda a sustentar o ponto de vista apresentado.

Mencionar a Constituição Federal em uma redação sobre acesso à saúde, por exemplo, não basta para fundamentar uma tese. É necessário relacionar os direitos previstos na legislação ao problema discutido e mostrar como essa conexão contribui para a análise. Isso vale para referências históricas, filosóficas, literárias ou culturais: elas ganham força quando são contextualizadas e ajudam a explicar o assunto, em vez de aparecerem apenas como citações decorativas.

A redação do Enem é avaliada em cinco competências, cada uma com pontuação de até 200 pontos. Os critérios consideram aspectos como o domínio da escrita formal, a compreensão da proposta e a fidelidade ao gênero, a organização da argumentação e a elaboração de uma proposta de intervenção. Por isso, o repertório sociocultural precisa estar integrado ao desenvolvimento das ideias e ser pertinente à discussão, sem substituir a análise do candidato.

Uma forma de colocar essa orientação em prática é seguir três etapas durante a elaboração do texto: definir o argumento que se deseja defender, selecionar uma referência que ajude a fundamentá-lo e explicar a relação entre os dois. Antes de utilizar uma citação, o estudante pode se perguntar se ela realmente contribui para esclarecer o problema ou fortalecer sua tese. Se não conseguir estabelecer essa conexão com clareza, é melhor rever a escolha.

Como organizar os estudos na reta final

Para organizar a revisão, o professor recomenda estudar diferentes eixos temáticos, como tecnologia, segurança, saúde, religião, meio ambiente, educação, acessibilidade e cidadania. A proposta é ampliar o conhecimento sobre questões sociais e reunir informações que possam ser mobilizadas conforme o tema da prova. Esses eixos funcionam como uma forma de organizar os estudos, não como previsões sobre o assunto que será cobrado na redação.

Questões relacionadas à proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital e aos desafios ambientais, por exemplo, podem servir de ponto de partida para exercitar a construção de argumentos. Ao estudar cada assunto, o candidato pode identificar problemas, compreender suas causas e consequências e selecionar referências que ajudem a aprofundar a análise. Essa preparação permite desenvolver um raciocínio próprio, em vez de depender de exemplos decorados que nem sempre se encaixam na proposta.

Na reta final, também vale consultar a Cartilha de Redação do Enem, revisar os critérios de avaliação, analisar as propostas de edições anteriores e conferir algumas redações nota 1000 e os comentários da banca. A leitura crítica dos próprios textos ajuda a perceber se os argumentos estão bem desenvolvidos e se as referências escolhidas contribuem efetivamente para a discussão. O objetivo é chegar à prova com repertório variado e capacidade de adaptá-lo ao tema apresentado.

Mais do que memorizar citações, o candidato precisa saber interpretar o tema, selecionar conhecimentos pertinentes e explicar como eles sustentam seu ponto de vista. Uma referência bem utilizada não substitui o argumento: ela ajuda a dar consistência à análise e a demonstrar o raciocínio construído ao longo da redação.

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